Alvaro Esteves
Quando a gente se depara com o título “Brasileirôu” – e com a belíssima capa “tropical” do disco – a tentação é imaginar um álbum que retrata o Brasil de maneira literal. Mas Frederico Forte, o Frederico 7, segue por outro caminho. Seu novo trabalho é uma obra, acima de tudo, original, que toma a cultura brasileira como ponto de partida para refletir sobre questões universais. E não trazer um “Brasil cartão-postal” de forma documental ou folclórica, neste caso, é uma ótima notícia.
Nada neste disco é banal: as composições, diversas e surpreendentes; as letras, inspiradas; os arranjos, ricos e inventivos. Claro que a ginga brasileira está presente. Boa parte das músicas encontra, na batida do samba, o seu território. Mas, ao longo da viagem, as melodias buscam outras vertentes: um xaxado bem nordestino que de repente vira rock; uma levada meio latina visita deuses africanos; um pop incidental, mas sempre elegante. E tudo termina com um violão solo perfeitamente integrado à voz, que desemboca nas ondas do mar, na faixa de despedida.
As letras não fazem por menos. Na poética de Frederico – em português, inglês ou espanhol- a natureza não é apenas paisagem; é promessa de renovação, seja na grande floresta, no alto da goiabeira ou numa simples flor amarela. O amor não se reduz ao desejo; transforma-se em permanência — no afeto, no encontro, no chamego. A ancestralidade não é algo distante; manifesta-se na evocação de Oxumaré, Tatewari e Obatalá. O estar em movimento não é incidental; é constante, no caminhar, na travessia, no transmutar, no renascer. A espiritualidade, por sua vez, não é fuga do mundo; é uma experiência de reconciliação com a vida, a oração silenciosa de um pai, um convite à esperança, à aceitação do tempo e à contemplação da beleza do instante. Sua obra aproxima Drummond de Xangô, Pindorama da bossa nova, o Atol das Rocas do sofá da sala e o sagrado do cotidiano.
Tudo isso emoldurado por arranjos igualmente instigantes, que vão dando contextos a cada canção e criando texturas. O belo naipe de cordas, os sopros seguros, os backing vocals sempre a serviço das narrativas e, sobretudo, a riqueza da percussão, valorizam a base instrumental e a voz de Frederico. Tudo é bem dosado, para criar paisagens sonoras e construir diferentes atmosferas, que alternam o dramático, o sensual, o lírico.
Frederico canta com maturidade e segurança. Sua interpretação surpreende a cada momento, e nos ajuda, faixa após faixa, a decifrar o verdadeiro caleidoscópio de ideias, evocações e sentimentos de cada canção. Percebo influências? Certamente. Quem não as tem? A temporada vivida pelo México, por exemplo, não passou em branco. Assim como tênues ecos de Gil, Milton, Djavan e, principalmente, Lenine, aqui e ali. Tudo valorizando a personalidade marcante do intérprete.
Enfim, é um disco sofisticado, sem ser pretencioso; é brasileiro, sem ser ufanista. Num cenário musical dominado por platitudes, é uma raridade que foge do lugar comum. Muito mais do que uma coleção de canções, é um conjunto coerente, pensado como uma obra completa. As faixas conversam entre si, compartilham um mesmo universo simbólico e constroem, de ponta a ponta, uma visão de vida, na qual natureza, ancestralidade, amor, humor e identidade brasileira dialogam continuamente.
No fim das contas, Brasileirôu não nos ensina apenas um novo verbo. Depois de ouvi-lo, a gente percebe que “brasileirar” talvez seja menos um lugar de origem do que uma maneira de olhar o mundo.

